Bike Challange Serra do Rio do Rastro

Lauro Muller | Santa Catarina | Brazil


Desafio Serra do Rio do Rastro


Eu treinei pouco, confesso. Estava desacostumada a andar de bicicleta.
Fiz a inscrição em julho e fiquei me enrolando, me enrolando... até que em setembro eu acordei pra vida e comecei a treinar desesperadamente. À moda brasileira! 

Desde janeiro, quando voltei do Cassino, estava sem pedalar. Que coisa feia!
Tá, eu me explico: é que a cidade andava violenta demais para os ciclistas. Foi um período antes de instalarem as novas bicicletas do Bike Poa (que ajudam a popularizar o conceito de deslocamento de bike pela cidade), então ir e vir de bike, pra lá e pra cá, estava realmente muito complicado e, consequentemente, também desanimei de pegar estrada. Aí já viu: passei praticamente o ano inteiro comendo feito um porco, a balança subindo e virando ventilador... essas coisas todas de gente que se entrega fácil ao junkie food.

Então setembro chegou e o desespero tomou todo o meu corpo disforme e cheio de banha.

Passei a cumprir uma tabela de vinte e oito dias que incluíam duas horas e meia diárias de bike em ritmo moderado a intenso e uma hora e meia de academia. Sofri, suei e chorei, não exatamente nessa ordem, mas despachei quatro quilos durante esse período.

E chegou o dia fatídico. 
Saímos na sexta-feira, pois a prova iniciaria às seis da manhã do sábado (27/10). Dessa vez eu fui sozinha, meu parceiro de pedal estava trabalhando em um casamento. O ônibus foi fretado pela Viva Bike Tour Poa e a Genovevinha foi muito bem tratada do início ao fim.



Peguei a plaquinha com o número 004: meu número de sorte! <3

Chegamos em Lauro Muller, nos arrumamos, tomamos café da manhã e às seis em ponto começamos a subida da Serra.

Eu não estava bem aquecida. E, como disse anteriormente, também não estava bem treinada. Logo senti algumas fisgadas nas coxas. Mas depois que aquece, só vai. O amanhecer estava lindão; o jogo de luz e sombra na Serra do Rio do Rastro é espetacular pela manhã.


Que momento!

Eu estava ali, toda embebida na minha endorfina, passando por alguns competidores e sendo ultrapassada por um monte de outros... assim tentava manter um ritmo bom e a subida ainda não estava tão puxada. Me sentia cem porcento conectada com aquele lugar.

Estradas são cicatrizes no meio da natureza. 
Eu ia percorrendo aquela linda cicatriz sinuosa, curva a curva, sentindo o sol da manhã e um cheiro delicioso de erva cidreira. As montanhas iam se aproximando pouco a pouco, os pneus da Genô passavam pela água que corria das rochas no paredão lateral à Serra, água que formava o Rio do Rastro lá embaixo. Um momento sublime. A gente passa por momentos assim, sublimes, em cima da bicicleta. Sem cápsula para nos proteger das forças da natureza, lá estava eu, desnuda e vulnerável, pensando na vida e no quanto sou pequena diante daquela natureza exuberante.

Até que iniciou a subida mais íngreme. Os oito quilômetros finais eram muito, MUITO mais difíceis. Ali a poesia morreu completamente e eu comecei a excomungar minha maldita preguiça de um ano inteiro de sedentarismo. Vinham frases na cabeça, como: "o que é que eu to fazendo aqui, meldels?", "mas eu sou uma gorda bem fdp mesmo!" e "agora eu vou desistir. Não, pera. Tá, agora. Não, pera. Tá, agora. Não. Peraí. Mais um pouquin...".

A verdade é que o cume estava ali, na frente dos meus olhos! Mais um pouquinho eu chegaria lá. PUF PUF PUF... Faltava apenas mais oito quilômetros horrorosos e um milhão de curvas super fechadas (mentira, no total eram 280 curvas super fechadas). Ah! Pra ajudar, tinha um ciclone parado em cima do sul de Santa Catarina naquele dia, então o vento contra era abundante, só pra dar mais emoção pra minha banha junkie.

Cheguei ao primeiro mirante e pensei: "ah, fodace, agora vou completar essa prova!"

E o último mirante não chegava, não chegava. "PUF PUF PUF gorda de merda PUF PUF PUF gorda pal no cu". Como você pode ver, pensamentos de incentivo não são o meu forte.

Até que cheguei. A ventania derrubando a bicicleta. Um frio horroroso, mas uma paisagem que compensava todo o sofrimento.

Atenção para a face do sofrimento:

Enfim... chegamos! Genovevinha e eu. Mais uma aventura pra nossa história de amizade. Eu e minha bicicletinha preta. Minha Caloi de supermercado, minha menina simples porém envenenada.

No fim, reclamei e reclamei, mas adorei a experiência.
Ano que vem tem mais!

Total da prova: 4:15hs para subir, 1:15h para descer.
24km em 1.740 metros de altitude
280 curvas e vento de 80km/h.
Chupa, sociedade!