Praia do Cassino

Cassino's Beach | Rio Grande | Brazil

A Praia da Melancolia

Demorou quase cinco meses para que eu pudesse escrever alguma coisa sobre a nossa viagem para Chuy cruzando o Cassino. Li relatos de outros ciclistas antes e depois da viagem e notei que todos queriam dizer algo a mais sobre ela, mas ninguém conseguia explicar direito o que é cruzar esses 242km de areia e conchas no extremo sul do Brasil.

Talvez a palavra que melhor defina o Cassino seja melancolia.



Confesso que passei 2017 inteiro pensando nessa travessia. Eu buscava me afastar da humanidade, estava farta das pessoas, queria isolamento. Atravessar um litoral exuberante me pareceu a mais alegre solução para que eu me encontrasse comigo mesma, desfrutasse da solidão que tanto desejava... mas eu estava enganada. Solidão, que na cidade é sinônimo de alegria (para mim), na Praia do Cassino tem outro significado. Essa praia possui um efeito avassalador no viajante que ousa cruzá-la: ela mexe com todos aqueles sentimentos estranhos que ficam dentro da gente, cutucando. A rotina da cidade nos anestesia. No Cassino, não há como sair incólume.

A melancolia tomou conta de mim e eu não sou melancólica, não era isso que eu buscava. Talvez toda aquela pretensão de antes da viagem tenha sido frustrada justamente porque eu não saiba lidar com a melancolia. O Juliano, meu parceiro na travessia, tava lidando muito bem - e me ajudou muito. Ele é naturalmente melancólico. Talvez por isso, para ele, a viagem tenha sido tão diferente, tão empolgante. E eu lá, me sentindo um personagem chorão de Lost.


Dizem que o Cassino é a maior praia do mundo. De fato, oficialmente é... mas tem o Hermenegildo lá embaixo, brigando pelo mesmo título.

Por ser a maior praia do mundo, são quilômetros e quilômetros de uma paisagem que, à primeira vista, parece sempre igual, mas não é. A Praia do Cassino oferece nuances delicadas; ora pequenas baías de água suave, ora longos trechos de mar bravo. A areia tinha momentos de um branco que evidenciava a sua pureza quase intocada; em outros trechos, era recheada de conchas coloridas; e em outros trechos era de um marrom-escuro ou avermelhado que remetia às paisagens lunares das fotografias.

Eu me mantive o mais conectada que pude com a natureza. Passar por dentro da reserva do Taim em sua faixa litorânea e ver todos aqueles animais marinhos me dava uma vontade imensa de chorar.

Ficava longos períodos sozinha, sempre a menos de 1km de distância do Juliano. Optamos por fazer nossas viagens assim, sem tanta conversa, para que pudéssemos justamente nos manter conectados com a praia. Porém mesmo quando estávamos juntos e conversando, a melancolia era sempre presente.


Ficamos quatro dias na praia. No primeiro dia ainda tinha muita humanidade por perto, mas à medida em que nos afastávamos, o sentimento de solidão e de distância, combinado com a queda total do sinal do celular, nos pegou no contrapé. "E se..." era um pensamento recorrente. Sim, porque se acontecesse alguma coisa de errado, estaríamos totalmente vulneráveis, à mercê da natureza.

Mas nada aconteceu de errado. Tivemos que racionar água, isso é verdade, o que foi uma maneira peculiar de aprender a dar mais valor à facilidade de abrir a torneira todos os dias na minha vida da cidade. Eu hoje estou mais conectada à minha filosofia de preservação ao meio ambiente do que antes.


E sou mais crítica agora com as pessoas que se julgam "ecologicamente corretas". Não, ninguém é ecologicamente correto vivendo sem abrir mão de seus confortos. E isso inclui ter carro não-compartilhado, não separar o lixo adequadamente, tomar banho de meia hora. Não gosto de quem se auto-intitula "ecochato" e não abre mão de seus confortos. Para mim, são pessoas hipócritas.


Porque a solução para o Planeta Terra não é a humanidade. Os seres humanos NÃO VÃO "salvar o Planeta". Esqueça isso. O que precisamos pensar é em COMO REDUZIR A NOSSA PEGADA NO PLANETA TERRA.


E isso está diretamente ligado à redução dos nossos confortos.


Vi muitos animais mortos na Praia do Cassino, muitos. Eram tartarugas, golfinhos, baleias, focas, tubarões... isso foi assustador. O IBAMA associa as mortes à pesca ilegal e, principalmente, ao lixo plástico que a humanidade sujesmunda larga nos oceanos.



Para mim, a travessia do Cassino lembrou que devemos estar o tempo todo com a mentalidade voltada para a redução do nosso impacto na Terra. Então se você está lendo esse texto e chegou até aqui, poderia pensar individualmente no seu próprio impacto, na sua "pegada" deixada no Planeta, não poderia? Realmente não é possível usar transporte público ao invés do carro? Realmente é difícil separar o lixo para a coleta seletiva? Realmente é complicado cuidar do uso da água potável?

Minha birra com a humanidade está longe do fim, mas o Cassino amenizou muito em mim. Desenvolvi uma paciência e uma tranquilidade que antes eu não tinha. Quatro dias foram suficientes para promover uma boa mudança dentro de mim.


Chegamos aos molhes do Chuí às cinco da tarde do quarto dia. Chuí é uma praia muito lindinha, tinha mais uruguaios do que brasileiros na faixa litorânea. Quanto mais nos aproximávamos do ponto final da travessia, mas lágrimas escorriam pelo rosto. Eu tentava não chorar, mas era impossível. Ver tanta gente de novo foi muito bom. E eu, definitivamente, não quero mais voltar para lá.


A Praia do Cassino será, para sempre, uma lembrança salgada do quão ínfimos somos ante a força da natureza.



Nós, humanos, não somos nada.

Texto escrito em abril de 2018